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Economia de partilha. ?Vamos largar esta ideia de que temos de ser donos de tudo o que usamos? /premium


April Rinne, uma das principais vozes a falar de economia de partilha, esteve em Portugal e, em entrevista, fala sobre quão estranho é pagarmos €100 por um berbequim que usamos 14 minutos.
Faz sentido pagar 100 euros por um berbequim que vamos usar (revelou um estudo recente) 14 minutos durante toda a vida útil do aparelho? Faz sentido num bairro onde há 15 casas haver 15 corta-relvas, um em cada casa? E, para as empresas, faz sentido pensar que se pode continuar a produzir coisas achando que as pessoas vão sempre querer comprar (quase) tudo o que usam no dia a dia? Se perguntarmos a April Rinne, uma das principais vozes a falar sobre economia de partilha, nada disto faz sentido. E “vêm aí grandes mudanças”, garante.
April Rinne esteve no Porto este mês de setembro, para uma conferência organizada pela Porto Business School. Nas vésperas de voar para Portugal, deu uma entrevista por Skype ao Observador, e falou sobre as vantagens económicas, ambientais e sociais do modelo da economia de partilha, que passa por, cada vez mais, “largarmos esta ideia de que temos de ser donos de tudo”. A norte-americana, considerada em 2011 uma Young Global Leader (jovem líder global) pelo Fórum Económico Mundial, ainda teve tempo para falar sobre a próxima grande inovação, que poderá disromper disruptores como a Uber.
Começo a entrevista com uma nota pessoal. Na rua onde cresci, nos subúrbios, nos anos 80, havia 15 casas e em cada uma havia um corta-relvas. Cada família teve de comprar um corta-relvas, tinha de fazer manutenção, tinha de guardar algum espaço na garagem para o arrumar após cada utilização, etc. Este era, portanto, um modelo de consumo linear que a April acredita que tem os dias contados. Este exemplo serve para explicar a sua visão do modelo de economia de partilha?
Esse é um ótimo exemplo. Uma das ideias que costumo sublinhar nas minhas palestras é que em várias cidades — Lisboa e Porto podem incluir-se aí — tem havido um grande boom em algumas áreas da economia de partilha, sobretudo ligadas ao turismo e aos transportes. No entanto, a economia de partilha diz respeito a todas as áreas da nossa vida. Se pensarmos em termos globais, já existem plataformas para facilitar a economia de partilha literalmente em quase tudo em que se possa pensar, para as coisas mais básicas do quotidiano.
Como, por exemplo?
Pense nas ferramentas, por exemplo. Pense em quanto tempo é que usa o berbequim que tem lá em casa, que lhe terá custado talvez um valor na ordem dos 100 euros. Foi feita uma estimativa de que um berbequim só é usado, salvo erro, 14 minutos durante toda a sua vida útil. É um exemplo de algo que está arrumado na garagem. Se pensarmos bem, não precisamos de ter um berbequim, apenas precisamos de ter acesso a um em momentos muito específicos. Se em vez de falarmos em “propriedade” falarmos em “acesso”, podemos tirar daí muitas vantagens.
Quais são as principais vantagens?
A primeira vantagem é económica. A economia de partilha permite-lhe poupar dinheiro ou, por outro lado, ganhar mais algum rendimento de outras formas, designadamente através da rentabilização dos ativos que tiver que estejam em sub-utilização. Se em vez de comprar um corta-relvas, a sua família tivesse partilhado um corta-relvas com outras famílias da rua, teria poupado dinheiro.
Que outros benefícios existem?
Além da questão económica, a principal vantagem está relacionada com o ambiente. Pense em quantos recursos foram gastos para produzir 15 corta-relvas — só para a rua onde cresceu. Este é o mesmo raciocínio que se aplica no setor do transporte, que deixa uma pegada ambiental muito grande.
Mas, para partilhar um corta-relvas, os vizinhos teriam de se organizar, certo?
Claro, mas isso está relacionado com outra vantagem de que costumo falar, que é a questão social. A economia da partilha estimula o sentido de comunidade — pense que pode trocar algumas palavras, “bom dia, boa tarde” com o seu vizinho, mas a vantagem dos modelos de economia de partilha é que dão, também, um pretexto para as pessoas interagirem mais e formarem laços. Não estou a dizer que se tornariam melhores amigos, mas talvez fosse uma oportunidade para combater a solidão, que é um problema sério nas nossas sociedades, que se baseiam muito no consumo individual.
Além disso, provavelmente, numa economia de partilha consegue-se poupar dinheiro e, mesmo assim, ter acesso a um corta-relvas melhor, que corte melhor a relva ou mais rapidamente…
Sim, essa é a quarta vantagem. A partir do momento em que existe uma plataforma que ajuda a organizar quem é que, neste ou naquele dia, requisitou o corta-relvas, torna-se muito mais fácil investir numa máquina mais eficaz, mais durável, mais fácil de fazer manutenção (se calhar em vez de ter de limpar a máquina todos os meses, rodava entre todos e só tinha de a limpar uma vez por ano).
Do ponto de vista das empresas, e sem sair dos exemplos do quotidiano de que estávamos a falar, que exemplos é que tem visto de passagem para um novo modelo, de partilha?
Em muitas cidades nos EUA (e não só) já se vê as cadeias de artigos para a casa e bricolage, sobretudo as maiores, a disponibilizar a opção de alugar um corta-relvas, por exemplo, retirando a necessidade de comprar um. Quem vive minimamente perto dessas superfícies, faz muito sentido. As empresas estão a aperceber-se de que há aqui todo um novo modelo de negócio, e não deviam basear toda a sua atividade na compra e venda direta. Além disso, estamos a ver surgir um pouco por todo o mundo o conceito de “biblioteca de ferramentas”.
O que muda nos modelos de negócio das empresas quando em vez de se vender 15 corta-relvas mais baratos se passa a vender um ou dois mais caros?
Isso é um ponto importante. Uma coisa é certa: se tem um negócio estabelecido, assente no pressuposto da propriedade pura e da venda direta, então a economia de partilha pode criar-lhe alguns problemas. É muito confortável construir um negócio à volta desse pressuposto: de que toda a gente vai querer comprar mais coisas.
Não vai ser assim?
É interessante olhar para o contexto histórico dos últimos 50 ou 100 anos, um tempo marcado pelo marketing de massas e o consumo massificado. Este tem sido um modelo que se baseia em ter as pessoas a comprarem mais e mais coisas. Mas estamos a começar a aperceber-nos das ineficiências que isso contém. É um modelo mais caro, mais oneroso e com mais desperdício. Essa “luz” está a fazer-se na cabeça das pessoas, e cada vez mais pessoas estão a largar esta ideia de que temos de ser donos de tudo.
"Se tem uma empresa com um negócio estabelecido, assente no pressuposto da propriedade pura e da venda direta, então a economia de partilha pode criar-lhe alguns problemas."
April Rinne, Young Global Leader do Fórum Económico Mundial
Quais setores podem ser mais transformados?
O exemplo mais imediato, que ocorre mais rapidamente, é o setor automóvel e as fabricantes de carros. Historicamente, todo aquele negócio é baseado na ideia de que toda a gente precisa de um carro, do seu carro. Mas as grandes empresas deste setor já se aperceberam do destino que as esperam caso não reajam. Começaram a perceber que este modelo que as tem alimentado tão bem nas últimas décadas, ou séculos, provavelmente não vai continuar a servi-los como até agora.
Qual é o cenário com que se confrontam?
É um novo modelo em que não se fala apenas em uso partilhado de carros mas, também, da mobilidade elétrica e da mobilidade autónoma. Há cerca de 10 anos cultivou-se a ideia de que iniciativas como a partilha de carros eram coisas estranhas, mais valia fingir que essas coisas não existiam. Mas nos últimos anos já começaram a perceber que esses modelos podiam ser uma ameaça real para o seu negócio.
E qual foi a reação?
Numa primeira fase, o que pareceu ser uma boa ideia, aos olhos de algumas fabricantes, foi pensar: ‘vamos lá gastar alguns dólares (ou euros) a fazer lóbi no sentido de proibir as empresas de partilha’. Historicamente esse era o modelo que eles seguiam. Mas aperceberam-se rapidamente de que essa seria uma estratégia perdedora.
Porquê?
Porque quando vivemos num contexto de sensibilidade para problemas como as emissões de CO2, os congestionamentos de tráfego, qualquer empresa que aparecesse em público a dizer que a partilha de carros era uma coisa má pode ver o feitiço virar-se contra o feiticeiro. Então foram sensatos: perceberam que não havia volta a dar-lhe, era um futuro inevitável portanto decidiram pegar nos milhões de dólares, ou milhões de euros, que iriam gastar em lóbi e investiram em inovação.
Inovação a começar, de certa forma, na introspeção?
Sim, todo o setor teve de fazer uma espécie de auto-avaliação e pensar sobre qual seria o seu modelo de negócio no futuro — quanto desse modelo de negócio passaria pela propriedade, quanto pela partilha. E a verdade, que reconhecemos, é que esse esforço valeu a pena porque, neste momento, todos os fabricantes de carros nos EUA, na Europa e na Ásia todos têm uma componente de uso partilhado na sua estratégia. Em algumas empresas ainda não se passou da fase de teste e conceção mas já está a acontecer alguma coisa.
É relativamente fácil perceber o que está em jogo para um setor como o automóvel, mas em que outros setores é que este modelo pode ter um alcance semelhante?
Já falámos das ferramentas, mas também estamos a ver muita coisa a acontecer na área do vestuário, logística, esses tipos de setores. Portanto, olhando para o futuro e com uma lente de grande angular, não podemos dizer que a partilha vai aniquilar a propriedade. Será um mundo cada vez mais híbrido — uma fabricante automóvel vai sempre precisar de ter uma opção de venda de carros, para quem quiser comprar, mas não vai poder ser só isso.
Que outros modelos vão assumir maior importância, nesse modelo?
Podemos imaginar modelos de propriedade parcial, frotas de veículos detidos por plataformas de partilha, carros propriedade das cidades (e geridos a nível municipal). Todos esses modelos vão, naturalmente, implicar alterações na forma como os produtos são construídos. Quando se produz algo para ser utilizado de vez em quando, ou em 10% do tempo (como são a maioria dos carros), essa coisa poderá não ter materiais tão duradouros. Mas também é provável que, ao produzir esse bem, podemos achar que não é necessário ser tão bom, em termos de funcionalidades, por exemplo. Noutro exemplo, o design de bicicletas para o uso partilhado tem de ter como prioridade a durabilidade, em detrimento de variáveis como a capacidade de personalização.
E do ponto de vista do setor financeiro, quais são as implicações de um modelo de economia partilhada?
Tenho feito muita pesquisa e trabalhado com empresas do setor financeiro, a falar sobre como será a atividade de crédito no futuro, o que acontecerá neste setor quando as pessoas já não precisarem de tantos créditos-automóvel como precisam hoje, o que irá acontecer quando as pessoas puderem “emprestar” os seus carros aos vizinhos, num sistema “peer-to-peer” (entre iguais) e obterem um rendimento também a partir disso. Há muita coisa que está prestes a mudar.
Como é que a atividade de seguros vai ter de mudar, para que estes novos modelos possam ser eficazes e adotados de forma séria?
Os seguros são um dos exemplos daquilo que eu chamo de “catalisadores” da economia partilhada, não só da partilha mas, em rigor, de uma partilha com responsabilidade. Quase todas as seguradoras no mundo, hoje em dia, têm produtos específicos para o uso partilhado.
É bom que o façam, caso contrário podem enfrentar a concorrência de players mais pequenos e inovadores?
Não vejo a coisa assim, sinceramente acho que é uma oportunidade gigante para o setor. É verdade que quem não se adaptar pode já não cá estar daqui a uns anos, mas é fácil perceber como pode ser um negócio importante — imagine uma seguradora que faz um seguro à sua máquina fotográfica só durante os 10 dias em que vai viajar. Este tipo de “micro-seguros” pode ser muito rentável e servir como “lubrificante” para a economia de partilha.
Que outro tipo de “catalisadores” terão de se desenvolver para dinamizar a economia de partilha?
Os sistemas de pagamentos são outra área que irá transformar-se totalmente. Outro que me ocorre, desde logo, é a multiplicidade de plataformas que podem surgir para nos ajudar a pagar os impostos de forma mais rápida — refiro-me a pagar os impostos relativos aos rendimentos que tiramos da partilha dos nossos bens ou do nosso trabalho. Tudo isto são coisas que vão ajudar a tornar a economia de partilha algo mais acessível e fluído.
"Olhando para o futuro e com uma lente de grande angular, não podemos dizer que a partilha vai aniquilar a propriedade. Será um mundo cada vez mais híbrido — um fabricante automóvel vai sempre precisar de ter uma opção de venda de carros, mas não vai poder ter só isso."
April Rinne, Young Global Leader do Fórum Económico Mundial
Mas, vamos recuar um pouco. Se eu não tenho um corta-relvas ou um carro melhor (só meu), como é que eu posso ir dormir à noite e sentir que sou uma pessoa globalmente melhor e mais bem sucedida do que o meu vizinho?
[risos] Bem, aí estamos a tentar no campo dos incentivos, da natureza humana e, claro, potencialmente das limitações que a economia de partilha terá. Mas eu respondo a essa pergunta com uma avaliação da forma como, eu acredito, as mentalidades estão a mudar. Nos últimos séculos, é verdade que muito do nosso valor define-se por aquilo que temos. Mas eu não sou uma anti-propriedade — reconheço que há alguns valores inerentes à propriedade — e a dignidade que surge associada a ser dono de algumas coisas, Mas sou uma defensora acérrima de que é preciso proporcionar outras escolhas possíveis no “menu”. Defendo só que temos de combater este pressuposto de que temos de ser donos de todas as coisas, a todo o tempo, e tem de haver alternativas a isso.
As novas gerações pedem mais essas alternativas?
Há, sem dúvida, uma transformação geracional quando se pergunta às pessoas como é que elas querem ser definidas. Se perguntarmos isso às pessoas, cada vez mais as pessoas querem ser definidas por outras coisas que não as coisas que têm. A geração dos “baby boomers” [os nascidos no Pós-Segunda Grande Guerra] foi uma geração muito especial — não digo que seja uma geração problemática mas é a geração em que estas questões são mais difíceis de modificar.
Não é fácil convencer um baby boomer a usar coisas emprestadas em vez te ter as suas?
Não é a coisa mais fácil, de um modo geral, porque cresceram numa geração em que o objetivo último era acumular coisas: uma casa maior, uma casa de férias, um carro, dois carros, três carros… O que é curioso é que se falar com os meus avós eles sabem perfeitamente do que estamos a falar. Dizem: ‘claro que sim, nós dantes vivíamos dessa forma’. Portanto, para responder à sua pergunta de há pouco, talvez seja natureza humana querermos encontrar formas de nos sentirmos melhor, eventualmente melhor do que os outros. Mas sabemos que, cada vez mais, isso não está relacionado com coisas mas com experiências: “viajei até ali, fiz aquilo, estive naquele local” e não tanto “tenho isto ou comprei aquilo”. Mesmo no vestuário, que é um exemplo por excelência de expressão pessoal, as pessoas podem “competir” a esse nível mas isso não quer dizer que tenha de ser proprietário de todas as coisas que visto. As empresas de retalho de vestuário estão a olhar cada vez mais para modelos de subscrição em que as pessoas têm acesso a roupa mas, passado algumas semanas ou meses, voltam a entregar em troca de outros.
"Talvez seja natureza humana querermos encontrar formas de nos sentirmos melhor, eventualmente melhor do que os outros. Mas sabemos que, cada vez mais, isso não está relacionado com coisas mas com experiências: 'viajei até ali, fiz aquilo, estive naquele local' e não tanto 'tenho isto ou comprei aquilo'."
April Rinne, Young Global Leader do Fórum Económico Mundial
Há uma grande parte da população que nunca vai querer deixar de ter o seu carro, etc…
Sim e a última coisa que tento fazer é convencer — ou converter — alguém no sentido da economia de partilha. Mas os baby boomers têm a sua esperança de vida, portanto mesmo que esses valores estejam encastrados na sua maneira de pensar, se avançarmos 30 anos vamos chegar a um ponto em que essa forma de pensar já não é tão prevalente como ainda é hoje.
A resistência é algo que vai desaparecer, à medida que essa geração também for desaparecendo?
Sim, porque está agora a chegar à idade adulta uma geração que está habituada a ter acesso a tudo o que precisa só através do telemóvel. Mas mesmo quando se fala nos baby boomers, que estão agora na reforma, começa a haver alguns casos de pessoas que percebem como a economia de partilha pode ser uma coisa ótima para eles nesta fase da vida. Pode ser uma forma de aproveitar o tempo livre, ganhar mais algum rendimento, combater a solidão, conhecer mais pessoas — portanto muitas pessoas reformadas estão a aderir a plataformas de economia. À sua maneira, estão a começar a acolher bem esta ideia.
Mas, como dizia, para os seus avós a partilha faz todo o sentido. Podemos um dia olhar para trás, na História, e notar que a economia de partilha é, na realidade, a norma e apenas houve um trecho da História, como que uma interrupção, em que se apostou mais num modelo de economia linear?
Espero que sim. A economia de partilha é tudo menos uma coisa nova, ainda que agora esteja a ganhar mais força graças às novas tecnologias digitais, que tornam tudo mais fácil e escalável. A razão por que estamos a ver este ressurgimento da economia de partilha neste momento é que a tecnologia está a fazer expandir quase infinitamente o conjunto de coisas que podem ser partilhadas. E com quem podem ser partilhadas. Portanto, espero que de certa forma estejamos a voltar às raízes mas a realidade é que a tecnologia permite que tudo isto seja feito a uma escala que dantes seria absolutamente inimaginável, com muito maior eficiência e sustentabilidade.
Mas é assim tão líquido que tudo o que se chama “economia de partilha” contribua para maior sustentabilidade? É assim em todos os casos?
Em alguns pontos temos a certeza de que sim. Mas em alguns casos essa ainda é uma questão em aberto: por exemplo, não houve ainda pesquisa que demonstre que as plataformas de “boleias” (como a Uber) fez com que houvesse menos carros nas ruas. Será que é assim? Podemos achar que sim, mas se calhar uma pessoa antes ia do ponto A ao B de metro mas, agora, vai de carro. Vimos o congestionamento aumentar em algumas cidades, mas ainda não sabemos se é por causa destas plataformas. Estou convencida de que o impacto líquido é positivo, mas ainda não há pesquisa suficiente que demonstre o impacto real de cada elemento.
"Não houve ainda pesquisa que demonstre que as plataformas de 'boleias' (como a Uber) fizeram com que houvesse menos carros nas ruas. Será que é assim? Podemos achar que sim, mas se calhar uma pessoa antes ia do ponto A ao B de metro mas, agora, vai de carro."
April Rinne, Young Global Leader do Fórum Económico Mundial
O smartphone foi a inovação que permitiu que acontecesse muito disto de que estamos aqui a falar. Mas, quando se fala da “morte dos smartphones“, qual acredita que será a próxima inovação tecnológica que irá dar o próximo impulso à economia de partilha?
O meu campo de pesquisa está mais relacionado com o lado empresarial e dos modelos de negócio, pelo que alguém mais ligado à tecnologia poderia dar uma resposta mais avalizada. Mas uma área de pesquisa tecnológica que poderá ser revolucionária — incluindo para a economia de partilha — é o “blockchain“.
Como é que o “blockchain” pode dar esse impulso?
Há várias plataformas que já estão a ser construídas a partir da “blockchain“. Se pensarmos nas principais plataformas de economia de partilha nos dias de hoje, são empresas que são detidas pelos fundadores e pelos investidores. Mas quem participa na criação de valor, como os motoristas, os utilizadores, os anfitriões, não são empregados das plataformas. Não têm nada a ganhar com a expansão desta ou daquela plataforma, além do seu rendimento normal — ou seja, não são acionistas. Se uma empresa dessas for para a bolsa, um dia destes, para os motoristas ou para os anfitriões, ou para os entregadores, isso não lhes vai dar quaisquer frutos. Cada vez mais pessoas refletem sobre estes temas e notam que este não é um modelo de negócio particularmente equitativo.
A “blockchain” pode permitir acabar com os “intermediários”?
Mais ou menos isso. O que a “blockchain” pode permitir é que se construa uma plataforma detida por quem presta os serviços. Para dar um exemplo, a “blockchain” pode facilmente ser a base para que se crie uma espécie de Uber detida pelos motoristas, ou um AirBnB em que os donos dos quartos e das casas de alojamento local são os donos do negócio. Já existem coisas destas, ainda que para já com pequena dimensão, mas quando se pensa nos grandes temas que preocupam a nossa sociedade — como a desigualdade, por exemplo — esse novo modelo de “plataformas colaborativas” pode ser mais um modelo disruptivo para as atividades económicas através da partilha.
É, por outras palavras, a disrupção que pode abalar os recentes disruptores…
Pode ser, sim. O conceito é incrivelmente poderoso: termos uma plataforma com a mesma fiabilidade e confiança só graças à validação feita pelos membros da “blockchain“. A ideia é que seria um modelo mais redistributivo — e há muitos interesses que gostariam de impedir que isto acontecesse. Não quero estar sempre a falar dos transportes porque é apenas um dos setores em que esta disrupção pode acontecer, mas é um exemplo muito bom para explicar o que está a acontecer. Muitos motoristas estão muito descontentes com os seus salários, com as comissões que têm de pagar para usar as plataformas, não se sentem apreciados. E a questão é que, pelo menos enquanto não houver carros autónomos, a Uber sem motoristas tem um valor zero. Portanto se houvesse uma maior mobilização por parte dos motoristas, isto pode ser muito disruptor: seriam os motoristas da Uber a disromper o negócio da Uber.

Fonte: Observador por Edgar Caetano
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